
O mundo descobriu o que nós sempre soubemos
Primeiro foi o ranking que colocou Lisboa como a cidade mais habitável do mundo para expatriados. Agora, a Condé Nast Traveller — uma das mais prestigiadas revistas de viagens do mundo — dedica um artigo de fundo àquilo que é, talvez, o segredo mais bem guardado da nossa qualidade de vida: as tascas tradicionais, que a revista descreve como o coração pulsante da cena gastronómica de Lisboa.
Num momento em que a capital portuguesa é reconhecida como um dos grandes destinos gastronómicos mundiais, a revista britânica foi à procura da essência — e encontrou-a nas mesas de papel, nas panelas a borbulhar e no convívio à volta do prato do dia.
Histórias de família que atravessam gerações
O artigo abre com um retrato cheio de vida: à hora de almoço, no Imperial de Campo de Ourique, os lisboetas reúnem-se à volta de um bacalhau à brás ou de uma feijoada, com a televisão ligada ao desporto, o vinho da casa na mesa e conversas rápidas em português. Um ambiente que, escreve a revista, está tão entrançado na cultura portuguesa como o pub está na britânica.
A história deste espaço é um exemplo comovente de continuidade: abriu portas em 1947, fundado pelos irmãos Manuel e António de Araújo. Em 1985, João Gomes assumiu o negócio com a mulher, a cozinheira Adelaide, e hoje o casal continua à frente da casa com o filho Nuno — que conta à revista ter aprendido a andar dentro do restaurante e guardar memórias de gerações de clientes. O compromisso da família é claro: manter a identidade e a fundação da casa, sempre.
Uma nova geração a manter a chama acesa
O que mais entusiasma no artigo é a energia da renovação. Em Lisboa, uma nova geração de cozinheiros cresceu dentro do mundo das tascas e está a reinventá-lo com carinho e criatividade.
Na Mouraria, o O Velho Eurico enche-se todos os dias de locais e visitantes. O proprietário, Zé Paulo Rocha, conta à revista que nasceu dentro do mundo das tascas — grande parte da família trabalha na restauração — e que o seu projeto é um reflexo dessa herança: pegar na comida tradicional portuguesa e torná-la apelativa para a sua geração, com respeito e diversão em partes iguais.
Ao lado, a Tasca Baldracca, de Pedro Monteiro, junta à base portuguesa ideias e sabores do Brasil. E ambos os cozinheiros partilham a mesma escola: a Taberna Sal Grosso, em Santa Apolónia, aberta em 2015, onde o menu é escrito à mão num quadro de ardosia e a equipa se senta à mesa com os clientes para explicar os pratos.
A autora do livro Eat Portugal, Célia Pedroso, resume à revista o que torna estes espaços tão especiais: o espírito mantém-se — preços acessíveis, proximidade, e aquela sensação de que, ao fim de duas ou três visitas, já se faz parte do círculo de amigos e família da casa. As tascas têm um papel comunitário profundo: é ao balcão que os mais velhos conversam, leem o jornal e mantêm viva a vida de bairro. Como diz a própria, a comida une as pessoas.
As 10 tascas recomendadas pela Condé Nast Traveller
| Tasca | Destaque da revista |
|---|---|
| Imperial de Campo de Ourique | Convivialidade clássica; apostar no menu do dia |
| O Velho Eurico | Reservar com antecedência — a espera compensa sempre |
| Vida de Tasca | Tradição e modernidade; pratos de arroz da chef Leonor |
| Adega Solar Minhoto | Doses generosas — ir com fome |
| Tasca Baldracca | Casa cheia todas as noites |
| Taberna Sal Grosso | Espaço pioneiro, aberto ao almoço e ao jantar |
| Zé dos Cornos | Famoso pelas costeletas e carnes no ponto |
| A Taberna da Rua das Flores | Alta cozinha e tradição de mãos dadas, no Chiado |
| Tasca Pete | De um inglês apaixonado pela cultura das tascas |
| Zé da Mouraria | Os clássicos de sempre, com ótimo peixe e marisco |
O mesmo espírito vive na Linha de Cascais
Este reconhecimento internacional celebra algo que não é exclusivo do centro de Lisboa. De Algés a Cascais, passando por Oeiras, Paço de Arcos e Carcavelos, o espírito da tasca vive em cada bairro: a casa de família onde o prato do dia sabe a domingo, o balcão onde toda a gente se conhece pelo nome, o peixe grelhado a dois passos do mar.
É esta vida de bairro — autêntica, calorosa, feita de relações — que geralmente pesa mais do que se imagina na decisão de comprar casa numa zona. Quando uma revista como a Condé Nast Traveller escreve sobre as nossas tascas, está também a confirmar o valor de algo que quem vive na Linha sente todos os dias: aqui, a qualidade de vida mede-se tanto em metros quadrados como em lugares à mesa.
Fonte: Condé Nast Traveller, «Even now, Lisbon's traditional tascas are still the beating heart of the city's food scene», por Abigail Malbon, 16 de maio de 2026.